Meus jardins secretos

por Natalia Maeda

“O Jardim Secreto” sempre foi um dos meus filmes favoritos. Desde criança, quando o vi pela primeira vez – e olha que nem lembro em que ocasião foi – o fato é que ele ficava na minha cabeça. Os jardins, aquela coisa misteriosa que a gente não sabe onde se localiza exatamente. A sensação de andar sobre a grama úmida cheia de sementes, cheias de segredos que só as raízes das plantas conhecem.

Ao mesmo tempo, criar um jardim é como criar uma parte de nós mesmos. Escolher o que se planta, mas não escolher exatamente tudo, já que sempre há alguma coisa que não se sabe completamente. Sempre há uma parte intocada, e talvez a beleza de tudo seja mantê-la em segredo mesmo. Em segredo para os outros e até para nós.

Fato é que os jardins sempre povoaram a minha mente, com toda essa carga dramática que eu atribuo a eles. Tanto foi que, tempos depois, descobri que cultivá-los dependia apenas de mim. Comprei as mudas, a terra, os vasos, fiz do meu tempo a minha dedicação a eles. É maravilhosa a sensação da terra entre os dedos quando se planta uma muda, seja ela de manjericão ou lavanda, de alecrim ou das capuchinhas que servem até para comer nos dias quentes de verão.

Mas esses jardins se estendem ainda mais. Quando descobri em alguma fotografia os campos de tulipas holandesas, isso já se tornou uma grande meta para mim, ainda não que não fosse concreta. Eu sabia que algum dia iria querer vê-las de perto, sentir que tudo o que me rodeia são só elas e mais ninguém. Eu as colocava nas histórias que escrevia, sem parar. Apareceram até no roteiro do meu TCC, que se chamava “Tulipas”. Demorou até que eu percebesse que essa ânsia por ver essas flores podia se tornar uma realidade. E lá fui rumo a esse sonho, na cara de na coragem, mochila nas costas, viajando sozinha pela primeira vez na vida.

A Holanda estava em primavera. E já saindo do aeroporto em Amsterdam, quando vi a primeira tulipa em um canteiro, meu coração já se encheu de alegria. Não eram de mentira, eram tão verdadeiras como eu mesma me encontrava ali em presença, tocando-as e sentindo as suas pétalas macias e os seus caules compridos bem verdes.

Estavam por toda parte. Nas casas, nas ruas, nos jardins onde o sol batia bem quentinho (ainda fazia um pouco de frio). Mas eu queria mesmo era ver os campos, o campos infinitos de tulipas vermelhas, amarelas, negras, brancas, rosas, como as havia visto do alto, lá do avião.

Mas demorou. Por conta da Festa da Rainha que deixou a cidade apinhada, aproveitei para visitar um amigo em Paris, o Walter, que estava fazendo doutorado lá. Claro, a Cidade Luz também é incrível e me tomou muita atenção. Por cada rua que passava, geralmente sozinha, eu me reconhecia e me conhecia, trocando ideias com as pessoas, com os lugares, com as árvores e cachorros, com o céu e com o sol, anotando em meu caderno o que não quisesse esquecer de jeito nenhum.

E lá – olhe só – também fui a um Jardim. O Jardim de Monet. Maravilhoso, cheiroso, todo salpicado de flores. Milhares delas, que faziam a casa parecer uma grande pintura viva.

O bom de viajar sozinha é que ninguém enche o saco para ir embora ou fazer compras, então me dei ao luxo de passar tanto tempo quanto quisesse naquele jardim. Conheci cada cantinho e descansei em um dos bancos, ao sol. Havia muitas crianças lá, em excursões de escola com professorinhas francesas. Que maravilha deve ser morar no país onde viveu Monet.

Vi depois as suas obras no Museu do Impressionismo, na cidade onde ele morava, Giverny. Novamente, muitas pinturas de flores e de jardins, de natureza. É um contato com a natureza que é impressionante, e muito calmante também, como se ela fosse mesmo uma grande mãe com seus braços a nos acolher, sussurrando: “não tenha medo, o mundo tem muitas coisas lindas para você!”.

Então voltei à Holanda e já faltavam poucos dias para vir embora. Eu quis deixar por último a visita aos Jardins Keukenhof, que é esse enorme, gigantesco jardim paradisíaco de tulipas, crocos, narcisos e tantas outras flores. Quis deixar por último porque queria que ele fosse a lembrança mais fresca na minha memória.

Peguei um ônibus bem cedo e saí de Amsterdam. Os jardins ficam em Lisse, que é uma cidade perto de lá, pequenininha. Estava com uma expectativa muito alta, pois era meu último dia na Holanda e nos dois anteriores havia chovido muito. Apenas nesse dia o sol brilhava muito forte e me senti muito feliz por isso.

Quando entrei no jardim, foi aquela alegria sem tamanho. Fiquei andando por todos os cantos, sorrindo feito pinto no lixo, querendo tirar fotos pra não me esquecer nunca, nunca, do quão belo era aquele lugar. Como no jardim de Monet, descansei um tempão ouvindo os sons da natureza, desenhei o que via, escrevi. Era um lugar muito inspirador.

Mas então eu descobri que o jardim não estava em sua plenitude. Alguns dias atrás, enquanto eu estava em Paris, os jardineiros haviam podado as flores que já começavam a sofrer por causa do calor do fim da primavera. Por isso os campos e os canteiros não estavam tão cheios.

Então fiquei triste com isso. Porque sempre uma parte de nós quer o perfeito, e fiquei chateada ao ver que diante de mim estava o quase-perfeito. Fiquei alguns minutos lutando comigo mesma, me culpando por não ter ido lá antes, até conseguir entender que eu já estava vivendo um sonho tão grande que seria muito egoísmo querer mais do que já estava recebendo.

Voltei para casa realizada, em contato com raízes profundas que eu nem sabia que existiam. Deixei uma parte muito grande de mim naquele lugar, naqueles jardins. Deixei meus segredos, que agora as plantas e as flores também conhecem. Mas também encontrei novos segredos, novos sonhos, novas vontades. Lá eu pude andar de bicicleta depois de muito tempo, e nessa sensação do vento no rosto eu vi o quão libertador pode ser viajar sozinha, me conhecendo melhor, conhecendo melhor o mundo, os sentimentos, as pessoas, de uma forma intensa.

Minha viagem não terminou, não há dúvidas disso. Ela está só começando, e se os jardins forem sempre a minha maior motivação, que eles então permaneçam sempre intocados e misteriosos dentro de mim, chamando-me a cada dia para descobrir as suas maravilhas.

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