Reminiscências de uma abobrinha

por Natalia Maeda

Estava presa havia muito tempo. Deitada em meio a dezenas de corpos inertes, respirava com dificuldade o ar gelado e úmido, em um ritmo que se fundia ao som constante de um motor e da água corrente do encanamento. Angustiou-se; fazia horas que não se movia. Tentou mudar de posição, mas um estranho dormia pesado sobre parte de seu corpo. Precisava exercitar algum músculo. Conseguiu apenas deslizar o olhar pelo pequeno ambiente imerso em escuridão.

Não era como uns que sonham em ser glorificados como mártires. Seu desejo era particular e íntimo. Não esperava ser reconhecida pelo atual sofrimento, mas pela glória que alcançaria quando finalmente se espatifasse em solo quente, fervilhante e inebriante em aromas. Pois o mesmo destino pelo qual muitos lamentavam, este sim, constituía seu principal objeto de desejo.

Observava os escolhidos em sorte; lançava murmúrios invejosos àqueles que se aprontavam na saída, deixando-a novamente para trás. O ar quente do exterior da geladeira, de tempos em tempos, tomava seu corpo acostumado ao frio. Nessas horas, ela sentia um misto de alívio e euforia, logo tomados pela mortificante sensação do desprezo. O que haveria de tão repugnante em si para que não fosse escolhida como os outros?

Olhou seu reflexo na porta, onde gotas d’água escorriam pelo vapor da variação de temperatura. Tudo o que via era a si mesma, com a pele esverdeada que lhe era típica, manchada em vincos superficiais na forma esguia de seu corpo. Viu-se e gostou do que viu; tentou sorrir, mas o frio a impediu de fazê-lo. Não parecia haver nada de errado com sua imagem. Talvez fosse o cheiro.

Esfregou-se em uma caixa de papel espesso, coçou as costas, braços e pernas; sentiu uma crescente e falsa euforia. Cheirou-se, mas nada sentiu além do odor suave da pele, que trazia reminiscências de suas origens – sensações distantes e inalcançáveis. Tudo parecia perfeitamente normal, mas algo a impelia a acreditar que fora cuidadosamente selecionada para nunca mais sair dali.

Conforme o desânimo a tomava devagar, suspirou e se deixou cair sobre os outros corpos adormecidos. Entregou-se também aos leves e superficiais sonhos, repletos de sentidos e algumas cores antigas; lembrou-se rapidamente de sons, gemidos, risadas dos tempos longínquos em que desfrutara da luz do sol em jardins imensos e infinitos. Tentava recordar a sensação da liberdade, mas o ar gelado que inspirava a trazia de volta à realidade de escuridão. Um peso no estômago transbordante de sementes.

Por um tempo que não se permitiu ser contado, ela ficou nesse vai e vem anestesiante. Não reparou, dessa forma, na porta que se abria novamente, preparando o caminho para as gigantescas mãos, severas e controladoras de todo destino: sem muito demorar, apontaram com dedos abertos suas presas, fazendo-as ecoar guinchos de euforia pela misericórdia de serem escolhidas. Outros calavam-se, temerosos pelo que haviam de encontrar no mundo do além.

Os sonhos que ela rememorava fundiram-se à intensa luz vinda de fora, ofuscando os olhos pequenos, pouco acostumados à claridade. Mal conseguiu respirar e logo foi agarrada pela imensa mão. Enquanto tentava entender o que se passava, teve espasmos de inquietação e carinho: sentia-se abraçada por completa, enfim protegida da solidão. Em instantes que lembravam a eternidade, conseguia desfrutar do misterioso e ofuscante amor pelo qual tanto esperara.

Foi elevada pelas mãos diante de olhos profundos, zelosos e ternos. Sentia-se finalmente aprovada, e seus suspiros de emoção fundiam-se ao líquido ralo que deixava sair de si conforme era cortada transversalmente em rodelas que expunham sua intimidade.

Teve vontade de chorar, mas não de dor. Sorrindo um sorriso permanente, ouvia ao longe vozes e um cantarolar distorcido. Suas lembranças de jardins iluminados voltavam. Sentiu o cheiro da família, da terra molhada, dos amigos; recordou a sensação de estar ao sol depois de mais uma rega no verão.

Enfim, foi novamente elevada pelas mãos e, vislumbrando o que havia embaixo, espatifou-se em solo quente. Em meio aos aromas inebriantes com os quais sempre sonhara, foi se deixando murchar conforme abandonava seu corpo mortal e voltava-se, em espírito, para o mundo de suas ideias.

Já não estava mais presente em consciência quando, enfim, foi degustada em uma das setenta mesas do restaurante.

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