Calmaria

por Natalia Maeda

Hoje cedo, passei a ver cores. Pois ontem, enquanto eu caminhava pelas ruas, o que encontrava eram cinzas de vulcão – de vulcão explodido, aberto pelos ares, como os que espalham a alma e o corpo em pedacinhos. Nos céus, mirava as nuvens como a fumaça do que passa, feito o tempo. Nos prédios, projetava o inalcançável, com reflexos do que poderia ser e não era – com luzes artificiais, com cortinas a disfarçar o desconhecido…

Mas hoje, quando arranco dos olhos as pálpebras e quando molho e lavo meu cérebro adormecido, então sinto o cheiro de verdade – dos jasmins que estão na janela e eu não via, do azul do céu que não enxergava; o cheiro doce das nuvens que posso acariciar com a ponta dos dedos; o gosto vivo das laranjas e o ritmo passional das ruas que se mostra com o pulsar a me lembrar que a vida anda.

O vulcão continua em atividade, com ferventes lavas e o magma e o que é quente e furioso – assim como estão ali as geleiras que se desprendem, lutando para congelar lágrimas no tempo – mas, por favor, Vida, não me peça para revelar agora as agruras de minha natureza. Pois hoje passei a ver cores e achei tão bonito…

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