Os barqueiros e os óculos

por Natalia Maeda

Estive meio desanimada essa semana, com altos e baixos. O piquenique no Parque Villa Lobos, com a criação do quadro coletivo e a companhia sempre balsâmica dos amigos da faculdade foi algo que me deixou bem pra cima, mas os momentos de solidão em casa têm sido bem angustiantes. Nunca pensei que ter que acordar, tomar café da manhã e escrever roteiros de filmes algum dia seria enfadonho, mesmo porque meu sonho sempre foi trabalhar em casa a hora que eu quisesse, podendo parar para fazer o que eu tivesse vontade. Mas agora sinto como se houvesse uma obrigação para a liberdade, ou algo parecido. E o problema disso é sempre a falta de disciplina, que me deixa fazer primeiro o mais fácil e empurra o trabalho pra quando já estou cansada demais pra pensar.

Mas o fato é que estou descobrindo cada vez mais que a criação coletiva é o que me estimula de verdade. Posso escrever coisas boas quando estou sozinha, não duvido disso, mas a angústia que pago pela solidão não compensa. Me contenta saber que, agora que o Brilhante F.C. ganhou o edital do Minc, vou voltar a criar histórias em equipe. A troca de ideias é sempre muito rica e me faz muito bem.

Uma vez eu usei a metáfora dos barquinhos para falar sobre honestidade, e acho que agora posso usá-la para falar de construção de ideias de um modo mais amplo. É assim: existe um oceano enorme de possibilidades. Existem muitos peixes, muitas algas, muitos bancos de areia e quem sabe algumas sereias de cabelos desbotados. Existem nós, os barqueiros, cada um com seu barco e seu par de óculos sub-aquáticos (que não deixam a água salgada arder os olhos). Eu vejo só o que está ao meu redor, e isso não passa de um raio de vinte metros. Posso colocar no meu relatório: este oceano contém corais amarelos e arraias douradas. Você, provavelmente, vai ver outras coisas. Minha avó vai ver outras mais, e não necessariamente as mesmas que eu vi. Percorrer todo o caminho para ver tudo o que todo mundo já viu é quase impossível, dado o tamanho e a profundidade do oceano. E, claro, chega uma hora em que a atividade se torna inevitavelmente maçante.

Mas existe uma possibilidade de tudo ser muito mais estimulante e agradável. Com a simplicidade de um “oi, tudo bem?”, é possível explorar partes gigantescas do oceano. Se dois barqueiros se juntam para contar o que viram, o simples navegar solitário já se torna uma missão: não vivo apenas para meu próprio conhecimento, mas para o crescimento de outra pessoa, e vice e versa. Na troca de experiências, a vida pulsa e ganha um sentido mais completo. Assim, histórias fantásticas podem surgir, e provavelmente esses barqueiros de vida pacata tomariam ciência da explosiva guerra das mil léguas submarinas responsável pelas sereias refugiadas ou pela tonalidade dos corais. Veriam, enfim, que o mundo é sempre maior do que o que achamos que é, na nossa pequena e confortável ignorância do dia-a-dia.

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