O Raio Verde

por Natalia Maeda

Nos tempos em que eu criava o projeto de seriado Théo, meu tutor e amigo Claudio Yosida me contou de sua admiração por Eric Rohmer e me indicou um dos seus melhores filmes, O Raio Verde, de 1986. Anotei o nome, mas só fui ver muito tempo depois. Já aconteceu de vocês terem visto um filme e pensado: “nossa, se o tivesse visto antes, certamente minha vida teria sido melhor”? Foi assim.

O Raio Verde conta a história de Delphine, uma jovem parisiense que não tem nada para fazer nas suas férias de julho depois que uma amiga desiste de viajar com ela. Sempre observadora, Delphine se sente deslocada do mundo e das pessoas, não consegue se envolver completamente em nenhuma situação e está sempre descontente. Ela viaja de um lado para o outro, sem rumo, conhecendo pessoas e fugindo das ocasiões em que se sente ameaçada. Mas, no processo, começa a perceber que existe sim uma esperança de mudar, de amar a si mesma e aos outros, de se sentir amada e feliz. Uma esperança que corta o horizonte como um raio verde ao fim do poente.

Assisti-lo me fez relembrar uma época em que eu era como Delphine. Reclusa, triste, observadora ao extremo, deslocada do mundo e achando que era a princesa perdida em uma torre fria de marfim, inatingível por todos – e, como percebi depois, por mim mesma. Foi difícil mudar – e, por mais que por vezes ainda me sinta no terrível direito de querer ficar sozinha olhando para o teto como se fosse a tela de um filme que não acontece, hoje consigo enxergar novas perspectivas.

Sinto que vivo mais. Sinto que consigo ser mais honesta com meus sentimentos, consigo me expressar com mais fluência e – principalmente, me relacionar com as pessoas de forma a pulsar o amor que há em mim. O amor que antes era invisível, inalcançável, oculto pela camada da razão e da intelectualidade extremas – que disfarçavam com aparente sucesso o meu enorme pavor de estar viva.

Há amor em mim, há amor em nós. O raio verde não é um mito. Apesar de ser difícil vê-lo, está lá, esperando para preencher o céu com esperança lancinante. E, caso deixemos passar o instante decisivo, há um consolo: o sol se põe todos os dias – logo, sempre há uma nova chance para mudarmos o que nos tem impedido de sermos felizes.

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