Kytice

por Natalia Maeda

O poeta e escritor tcheco Karel Jaromír Erben escreveu, em 1853, uma coletânea com 12 baladas baseadas no folclore de seu país, entre contos de vingança, traição, amor, paixão, vida e morte. 150 anos depois, o diretor F.A. Brabec quis reunir sete delas em um filme repleto de poesia visual. O resultado foi estonteante: Kytice não só preenche os olhos com planos magníficos, como também lança aos corações emoções primitivas, universais e ainda assim únicas para cada estória.

Entrar em contato com essa parte obscura, instintiva do comportamento humano pareceu me lançar luz ao que há de belo na ingenuidade de se confiar nas emoções. Entregar-se ao amor, correr em bosques floridos, mergulhar no desconhecido, semear-se e colher sem desconfianças – será essa a verdadeira fé na vida?

Por que tenho medo do que não sei? Por que não ouso sair de casa, por que me sinto ameaçada pelos que nem me conhecem? Por que, aos meus olhos, meus próprios olhos me vigiam, me culpam, controlam meus passos?

Kytice me fez pensar, e talvez tenha surtido algum efeito. O medo de viver, de certa forma, nos ata à morte. Como nos ritos de Perséfone, cortam-se os fios de cabelo que nos prendem à vida e, pouco a pouco, caminhamos em direção ao nosso próprio fim. No meu caso, decidi dar um basta a quaisquer comportamentos destrutivos. Quero viver, semear-me e colher sem desconfianças. A semana que passou parece ter refletido um pouco dessa mudança, e sinto que ela não vai parar até que eu queira. Não quero.

Hoje, desejo a vocês a vida. Completa, redonda, honesta e autêntica, em contato com o que de mais verdadeiro se esconde em nossas emoções e sonhos, até mesmo os mais sombrios.

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