Pelo mundo

por Natalia Maeda

“O mapa-múndi, de repente, parecia muito pequeno.

Examinou-o com atenção. Países, cidades, maravilhas. As ilusões não tinham limites. No mundo das bonecas não existiam fronteiras, nem raças, nem problemas com as diversas línguas. No mundo das bonecas, Brígida era rainha por obra e graça de sua liberdade e pelo empenho de sua dona, sempre pronta a imaginá-la feliz.

Uma extensão de si mesma.

Dora abraçou-o por trás e beijou sua cabeça, por entre o cabelo emaranhado. Franz Kafka sentiu a carícia e o sussurro daquela voz falando quase ao seu ouvido.

– Amanhã vou ao parque com você para conhecer essa menina.

– Não, prefiro que não.

– Não quer dividi-la com mais ninguém?

– Não é isso.

– Tem certeza de que ela é tão menina assim?

Agarrou-a pelos pulsos e a fez dar a volta até colocá-la ao seu lado. Então se afastou da mesa e sentou-a sobre seus joelhos. Dora era linda. Às vezes ele a comparava com as duas prometidas anteriores, Fenice Bauer e Julie Wohryzek, e também com aquela jovem de dezoito anos com quem tivera um breve romance no sanatório de Hartungen, onde tratava a tuberculose, ou com Milena Jesenská, sua doce Milena, sua melhor confidente, mas não havia comparação possível. Talvez porque Dora era a última, a que estava agora a seu lado, enquanto as demais só existiam na lembrança.

Uma professora de hebraico dedicada a ele de corpo e alma no mais duro de sua descida para a morte.

– Quando crescer, ela vai arrebatar muitos corações – profetizou ele.

– Já está arrebatando – Dora afagou seus cabelos.

– Sou o carteiro dela, não se esqueça.

Ela lhe fez a pergunta mais temida.

E inevitável.

– Até quando?”

[Jordi Sierra i Fabra, Kafka e a Boneca Viajante]

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