Cartas entre Freud e Pfister

por Natalia Maeda

“(…)

Em termos terapêuticos, só posso invejá-lo quanto à possibilidade de sublimação em direção à religião. Mas a beleza da religião certamente não pertence à psicanálise. É natural e pode permanecer assim que, na terapia, nossos caminhos se separem. Bem à parte, por que nenhum de todos estes devotos criou a psicanálise, por que foi necessário esperar por um judeu completamente ateu?

Com saudação cordial, seu velho,

Freud

.

PFISTER A FREUD

Zurique, 29.X.1918

(…)

Por fim a pergunta: por que não foi um devoto, mas um judeu ateu que descobriu a psicanálise. Ora, porque devoção ainda não significa gênio de descobridor, e porque os devotos em boa parte não foram dignos de produzir estes resultados. Aliás, o senhor primeiramente não é judeu, o que lamento muito na minha admiração desmedida por Amós, Isaías, Jeremias, do poeta de Jó e de Eclesiastes; e em segundo lugar o senhor não é ateu, pois quem vive para a verdade vive em Deus, e quem luta pela libertação do amor, segundo 1 João 4.16, permanece em Deus. Se o senhor se conscientizasse e experimentasse a sua inserção em processos mais amplos, o que a meu ver é tão necessário como a síntese das notas de uma sintonia beethoveniana para formar a totalidade musical, eu gostaria de dizer também do senhor: ‘jamais houve cristão melhor’.”

[in Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939), pg.84 e 85]

Anúncios