Discutindo a relação

por Natalia Maeda

Depois que o Cauê comparou minha frequência de postagens à de Juliana Cunha (“é tão auto-sabotadora quanto você, mas posta todo dia”), fiquei a semana matutando sobre a pressão de se ter um blog e ter de escrever com certa regularidade – afinal, se eu quisesse escrever apenas para mim, teria um diário no fundo da gaveta, ou algo parecido. Sou completamente contra escrever banalidades que podemos ver em qualquer lugar, como sobre o lançamento do novo iPad, ou desabafos voyeurísticos como “hoje saí com meu namorado e foi muito legal” – mesmo porque nem considero essas coisas tão importantes a ponto de fazer valer o tempo que gastaria escrevendo-as para torná-las públicas. Como – acredito eu – já deu para perceber pelo estilo de meus posts anteriores, prefiro vir aqui de vez em quando, quando tenho algo mais interessante para exteriorizar nesse pequeno mundo virtual.

Mas percebi que mesmo isso me trazia um espécie de trava: ao ser tão seletiva com o que julgava ser “importante” a ser dito, chegava uma hora em que eu começava a achar que nada era de fato interessante, a não ser que eu excluísse completamente a minha pessoa ou colocasse à minha frente algumas centenas de folhas de voil que encobrissem com teorias ou citações de outrem aquilo que eu de fato queria expor. Assim, comecei a perceber indícios daquela típica desonestidade comigo mesma. Não posso me exigir o perfeccionismo de ter sempre palavras sábias a dizer – simplesmente porque não sou perfeita. Não posso ser a poetisa o tempo todo, se em mim há também uma voz tão prosaica quanto o sol que nasce e se põe todo dia.

Em um quadro de avisos na Mixer, onde tenho trabalhado nos últimos meses (e espero que nos próximos também), tem escrito em letras bem grandes uma citação de Domingos Oliveira: “Tenho notado a tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. Nunca turve as águas para que pareçam profundas”.

Esse é realmente um ótimo chacoalhão para os dramaturgos e roteiristas que pensam que escrever coisas herméticas é falar com profundidade, diretamente à alma, como se fossem espécies de oráculos com enigmas a serem desvendados pelos reles mortais. Mas, sem dúvida, também se aplica a escritores, poetas, blogueiros ou a qualquer pessoa ou ser que acredite que falar “com sabedoria” é melhor do que a sabedoria de admitir que não podemos ser completamente sábios, justamente porque ainda estamos vivos para afirmar qualquer coisa. Esse foi o meu caso.

Só para variar um pouco e deixar de ser misteriosa, coloquei no começo do post uma foto da minha viagem de férias para Buenos Aires. Quase metade de todas as fotos que tirei, naturalmente, foi de cachorros – como já se era de esperar (para quem não sabe, é costume meu, desde criança, fotografar cachorros pelas ruas). Mas essa foto foi particularmente legal porque, além do cachorro, consegui pegar parte desse lugar colorido e charmoso que é o Caminito, uma ruazinha pequenina no bairro do La Boca, com ares italianos e cheiro de cultura.

Assim, a conclusão desta manhã foi: escrever coisas curtas é bom de ler, mas dá preguiça; escrever demais é mais fácil, mas é chato; escrever quando se tem vontade, aí sim, é bom – e geralmente sai na dose certa.

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