Lixo virtual, vida real

por Natalia Maeda

 

Comecei o dia apagando meu aquário virtual do Facebook. Depois, a fazendinha.  Logo tive vontade de apagar várias fotos do meu computador.

Apertar o botão, jogar tudo no lixo, esvaziá-lo. Começar de novo.

Em vez de gastar vários minutos do meu dia alimentando peixes que não existem de verdade, decidi: vou desenhar, meditar, escrever ou ler um livro. Em vez da fazendinha, vou começar uma mini-horta de ervas aromáticas. Já comecei a pesquisa: hortelã, manjericão, tomilho, endro (o mais novo e mediterrâneo ingrediente das minhas tentativas de receitas) e, nas próximas duas semanas, as mudas, vasos e regadores.

As fotos, aos milhares (mais de 20 mil, com certeza), entopem o meu HD e não me deixam ao menos assistir a um filme em uma tarde de domingo. Gasto minha tarde tendo que fazer backups em DVDs, a fim de diminuir o volume de informações digitais – as quais raramente acesso, diga-se de passagem. E o filme, claro, acaba ficando para um outro dia.

É fácil cairmos em vícios que, em vez de nos ajudar a viver, atrapalham o dia-a-dia. Sinto como se fossem pequeninas mãos que apressam os ponteiros do relógio enquanto pensamos em adiar ainda mais o que temos de mais importante a fazer. Por que raios preciso colher cenouras de uma fazenda virtual? Por que preciso entrar naquele site e ficar clicando em todos os links, os quais acabo nem lendo até o fim? Por que quero ver as últimas fotos que conhecidos meus colocam na internet, se nem trocar uma palavra com eles tenho trocado nos últimos dez anos?

Apaguei tudo. Agora vou tomar um banho e ir pra terapia.

Qualquer dica para levar uma vida cada vez mais real e menos virtual será bem-vinda.

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