Jó 22:12

por Natalia Maeda

Eu gostaria de poder reviver um dos antigos Natais com a família, como aqueles em que a silhueta do meu tio passava atrás da janela com a touca do Papai Noel e sons de sininhos. Eu e meu primo ficávamos estremecidos de emoção e, assim que os sinos paravam de soar, íamos correndo abrir a porta da sala e nos deparávamos com nossos mais preciosos presentes. Na última vez em que isso aconteceu, lembro-me da felicidade com que ele foi pego ao ver seu fabuloso quebra-cabeça de mil peças da Monalisa – e eu, com a boneca mais bonita que pude imaginar.

O tempo passou e crescemos, é claro. Faz dois anos que esquecemos – ou queremos esquecer? – de sortear o amigo secreto da família. Hoje o Natal não é mais tão espontâneo, não ficamos mais com aquelas “roupas de ficar em casa” e nem dormimos todos amontoados na sala da casa da minha avó. Hoje, Natal é festa chique. Quando passou a ser? Vestimos as roupas mais bonitas, comemos as comidas mais sofisticadas e trocamos presentes mais caros. A alegria e aquela ansiedade gostosa deram lugar a uma tensão esquisita. Foram os preços das coisas que subiram ou a nossa noção de presente que encareceu? Foi a vaidade que aumentou ou a intimidade entre os membros da família que diminuiu?

Se, por um lado, mudanças são inevitáveis – ainda mais quando crescemos tanto em tão pouco tempo –, ainda sinto falta de ficar no quintal da casa, sozinha, olhando as estrelas em noite de Natal, ansiosa por ver qualquer indício de um trenó de Papai Noel. Hoje, da varanda de um apartamento enorme em plena capital, vejo as luzes de uma São Paulo que, de repente, se fez presente na minha vida, como uma explosão de acontecimentos e – quem sabe – de maturidade. Mas aperto os olhos, e não é preciso muito para que minha imaginação se encarregue em transformar as estrelas naquelas antigas luzes de um Natal quase esquecido. Porque posso ter crescido dez, quinze, vinte anos, mas os olhos que contemplam a noite são os mesmos, e o espírito reflexivo – que devo ter ganhado de presente no meu primeiro Natal – é algo que certamente não vou deixar de ter.

Que o seu Natal seja cheio de estrelas – tristes ou felizes, mas sempre brilhantes.

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