A brecha e o breve sofrimento

por Natalia Maeda

 

Sofro, não porque quero, mas porque as nuvens me são altas demais às vezes.

Sofro porque o que quero ver não é o que de fato vejo, e porque o vermelho não é sangue, mas um magenta puxando pro azul, o que é por demais difícil de se combinar com outra cor. Sofro porque quero me preocupar com o conteúdo, mas me incomoda a forma do texto (como se as palavras fossem perder o sentido se não estiverem devidamente alinhadas). Sofro porque quero sentir com os outros sentidos, mas os olhos, orgulhosos, tomam a frente e ditam as regras junto com pensamentos pré-concebidos. Sofro também porque acho que esse texto está ruim e penso que quem o ler não vai encontrar nada de altamente significativo para sua vida. Sofro porque sinto falta dos que se foram e dos que ainda não são. Sofro porque talvez ache a palavra sofrimento forte demais para o que de fato sinto, e penso que esteja banalizando essa expressão. Sofro porque vejo que me incomodo com tantas coisas sem importância enquanto Cristo, ele sim, de fato sofreu, justamente para que eu não me incomodasse com elas – ou para que visse que não têm a importância que lhes atribuo…

Assim, se sofro, esse é um motivo pra não sofrer, ou quem sabe o primeiro passo para tanto. Ao menos passo a ter certeza de que há algo melhor que me espera, ou que já esteja vivendo. Talvez o sofrimento seja a felicidade, pois se é só nesses momentos que nos lembramos dela… Se assim for, quero para sempre sofrer. As nuvens me são altas e não devo alcançá-las até minha morte, mas pelo menos as tenho em vista, e talvez isso não seja pouca coisa.

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