Volta

por Natalia Maeda

bridge

Hoje eu quis acreditar que por um instante ele poderia estar lá.

Passei por vales e montanhas, de onde costumávamos ver aquele vasto campo de girassóis – o perfeito lugar para nossas histórias tomarem vida – e cheguei àquela antiga cabana onde uma vez estivéramos.

Ele, um náufrago semi-consciente, sedento por conhecer o mundo e as pessoas. Eu, a mais antiga lembrança que pude encontrar na minha infância de uma princesa fugitiva e aventureira.

Naquele dia a noite estava bela. O céu, estrelado, lembrava-nos uma pintura, juntando o azul ao laranja avermelhado que vinha do fogo do fogão a lenha. E passamos a madrugada inteira a conversar sobre tudo que fosse bonito, feliz e triste, tudo que pudesse nos encantar e consolar, rir e chorar.

Hoje voltei lá, mas não o encontrei. O fogão estava aceso, mas a cabana mergulhava no silêncio do crepitar da lenha. No quarto em que ele dormira, a cama estava intacta.

Meu lamento foi se espalhando pelo chão e pelas janelas, escapando para o gramado lá fora, e para as árvores e para tudo mais que um sentimento pudesse alcançar. O choro se transformou em uma chuva que regou algumas árvores secas – aquelas que plantáramos para que pudéssemos abraçá-las quando crescessem. E então me deitei na grama, sob a chuva que saía de mim. E me espantei com o céu, que de azul passara a vermelho, e de vermelho a roxo, e de roxo ao negro, e do negro ao mais puro branco.

Fechei meus olhos e pude sentir a brisa suave que me acompanhou madrugada adentro, enquanto me recordava  de nossas aventuras e de suas palavras confortantes.

Sorri. Ainda podia senti-lo. Ele ainda estava comigo.

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