the last jasmines

na avenida

e quando tudo parece cheio de esperança, o castelo de cartas desaba
e você tenta desesperadamente levantá-lo, mas o vento é forte demais
e a solidão vem como chuva fina na avenida movimentada
as cartas ficam molhadas passando por entre os carros
e você sabe que o sol vai secá-las com o tempo
e que delas irão brotar flores e a fauna renascer
e os jasmins vão perfumar as alamedas
e os filhotes vão brincar em paz
mas tudo parece longe demais
e você só tem que resistir
um pouco mais

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O resgate

Adoro essa música do Hillsong. Sempre me lembra que, não importa o quão sozinhos nos sentirmos, sempre podemos chamar quem nos conforte e nos ajude a continuar em frente. No nosso coração existe uma pessoa que nunca nos abandona.

Princípio de Realidade

Vivam os sonhos não-realizados,
As cenas com palavras não-ditas,
As histórias imaginadas,
– reimaginadas,
Que não viram fato, de fato.

Vivam as frustrações
Que nos descobrem frágeis
Que nos descolorem, ágeis
Como se roubassem as tintas
Que juntamos com esforço a vida inteira.

Pois com os roteiros escritos
E não alcançados
As máscaras derretem
Os defeitos emergem
E nos vemos refletidos tão estranhos…

Que nossa estranheza seja honestidade
Que nosso desencontro seja a outra metade:

Viva o sonho, mas viva também a realidade.

 

 

A jornada dos órfãos

 

Imagem

Acho que todo mundo que me conhece já sabe que “O Jardim Secreto” é um dos meus filmes favoritos da vida. Primeiro porque os realizadores conseguiram passar pra tela cada emoção, cada desenho de personagem, de forma muito exata. Mas, essencialmente, porque a história do livro original, escrito pela Frances Hodgson Burnett, já é primorosa, de chorar. Resumindo, é a história da menina que explora os terrenos do tio misterioso e encontra o jardim secreto da sua mãe. Uma menina órfã.

Quantas histórias de personagens órfãos a gente já viu? Acho que umas milhares, e na maioria das vezes histórias inesquecíveis. Meninos e meninas, homens e mulheres, dinossauros e peixinhos que mal sabem de onde vieram ou quem são seus pais, partem em uma jornada em que são forçados a agir como adultos, testando seus limites e se deparando com a mágica que existe dentro de cada um.

É curioso como sempre a identificação com estes personagens é imediata, seja pra quem tem seus pais ou não. Vivenciamos cada drama da história como se, de alguma forma, todos fôssemos órfãos buscando nossas identidades e origens, ou mesmo um a sensação do amor perdida no infinito de tempos atrás. Seria a busca por um retorno ao Éden? Ao útero materno? Ao conforto do carinho que nos abraçava quando nem sabíamos ser? O que é o Jardim Secreto de Mary Lennox, o que é o Vale Encantado de Littlefoot?

Enfrentar os desafios da vida não é fácil pra ninguém. Às vezes nos sentimos como crianças correndo por um labirinto de escadas que sobem e descem, explorando um casarão em que não se sabe o que se vai encontrar atrás da próxima porta. Sorte a nossa que existem histórias como estas para mostrar a nós, órfãos simbólicos, que as angústias que guardamos no peito podem virar felicidade e florescer sem medidas. Basta que encaremos a nossa jornada, sem perder de vista o nosso jardim.

A ditadura do instantâneo

Acontece que agora o mundo exige que sejamos concisos.

Eu já estava me acostumando a isso. Em roteiro, o melhor é escrever usando o mínimo possível de palavras, de forma clara e direta. Afinal, é um material para ser lido por uma equipe que necessita de indicações muito objetivas sobre o que está acontecendo no filme, para então poder transformá-las nas cenas concretas que a gente adora ver, cheias de ação, drama e situações interessantes. Roteiro não é livro. Até aí, tudo bem.

O problema é que não é só o roteiro de cinema que pede para o escritor ser sucinto. Outro dia fui fazer minha inscrição em um evento de games para conscientização (o Games for Change, que aconteceu em São Paulo há algumas semanas) e o site me pedia para escrever minha biografia em 140 caracteres. Não lembro bem se era 140 ou 180, fato é que era um absurdo assim, à moda do Twitter.

E daí tudo precisa ser muito rápido. As informações chegam e se vão em centésimos de segundo, correndo, fugindo, pedindo para serem clicadas, e logo depois se escondem, somem no meio de tantas outras! Se algum internauta ousado publica um texto um pouco mais longo, já é acusado de ser prolixo. São tantos estímulos instantâneos, tantas imagens, tantas gags, que qualquer coisa que dure mais de um alguns minutos já é o suficiente para a sensação de se estar perdendo tempo.

Se tem uma coisa que eu adoro é sentir que aproveito o tempo o máximo possível. E isso não significa fazer mil coisas em uma hora, sabe? Mas sim fazer uma coisa bem feita, de corpo e alma presentes. Agora há pouco fui à livraria e me lembrei de como é gostoso poder caminhar sentindo as coisas boas que nos cercam. Mas sentindo de coração, desfrutando mesmo, sem ansiedades, sem julgamentos. Estava procurando um presente e achei um livro chamado Da colheita para a mesa, que é lindo. Fala sobre como termos um olhar consciente sobre os alimentos, prestando atenção na melhor época para cada legume, fruta ou verdura… cuidando nos alimentarmos de modo saudável e em respeito ao ritmo da natureza.

Nós, seres humanos do agora, forçamos o tempo! Queremos ter nossos alimentos favoritos todos os meses. Então os produtores plantam as sementes, enchem as mudinhas de veneno, colhem os frutos rapidamente… e o resultado disso nós devoramos num piscar de olhos. Por que gastar vinte minutos para cozinhar um macarrãozinho, se podemos fazer em um três minutos e já com o tempero pronto, olha só? Afinal, temos que trabalhar, temos que correr atrás de dinheiro, não podemos perder tempo, um minuto que seja…

E parece que isso também está acontecendo com as crianças. Criadas cheias de estímulos rápidos, de propagandas de roupas e de brinquedos daqueles que fazem tudo sozinhos. Pela vida corrida e cheia de ansiedade dos adultos, essas crianças vão aprendendo que as coisas são descartáveis. E se as coisas são descartáveis, as pessoas também podem ser. Onde está o valor que se dá ao eterno, ao aprendizado que não é passageiro como a vida das pilhas que se acabam? Esse aprendizado que está nos livros, nas histórias em que a gente mergulha e não quer mais largar, no contato de verdade com as pessoas, nos abraços, nos animais e na natureza? No sentir a vida de forma intensa e maravilhosa?

E aí me pedem para escrever em 140 caracteres. Antes eu até gostava. Sabe, pensava que pudesse ser um desafio à sagacidade. Mas agora eu vejo que parece muito mais uma tentativa desesperada de se deixar marcas (passageiras) no mundo, do que um verdadeiro estímulo à criatividade. Afinal, a vida não é feita de minutos e segundos, ou da quantidade de letras com que se escreve uma frase. A Vida, sim, é feita da matéria com que preenchemos essas lacunas. É feita de momentos com os nossos amigos, de passeios pelo mundo, de histórias boas, de alimentos preparados e desfrutados com carinho, de reflexões e de uma consciência real acerca do que está ao nosso redor. A verdadeira Vida, ela sim, é feita de Amor. Tanto faz se isso vem em dois segundos ou em cem horas, em duas frases ou em cinco volumes. O que é eterno é eterno, e nisso não dá para colocar ponto final.

Meus jardins secretos

“O Jardim Secreto” sempre foi um dos meus filmes favoritos. Desde criança, quando o vi pela primeira vez – e olha que nem lembro em que ocasião foi – o fato é que ele ficava na minha cabeça. Os jardins, aquela coisa misteriosa que a gente não sabe onde se localiza exatamente. A sensação de andar sobre a grama úmida cheia de sementes, cheias de segredos que só as raízes das plantas conhecem.

Ao mesmo tempo, criar um jardim é como criar uma parte de nós mesmos. Escolher o que se planta, mas não escolher exatamente tudo, já que sempre há alguma coisa que não se sabe completamente. Sempre há uma parte intocada, e talvez a beleza de tudo seja mantê-la em segredo mesmo. Em segredo para os outros e até para nós.

Fato é que os jardins sempre povoaram a minha mente, com toda essa carga dramática que eu atribuo a eles. Tanto foi que, tempos depois, descobri que cultivá-los dependia apenas de mim. Comprei as mudas, a terra, os vasos, fiz do meu tempo a minha dedicação a eles. É maravilhosa a sensação da terra entre os dedos quando se planta uma muda, seja ela de manjericão ou lavanda, de alecrim ou das capuchinhas que servem até para comer nos dias quentes de verão.

Mas esses jardins se estendem ainda mais. Quando descobri em alguma fotografia os campos de tulipas holandesas, isso já se tornou uma grande meta para mim, ainda não que não fosse concreta. Eu sabia que algum dia iria querer vê-las de perto, sentir que tudo o que me rodeia são só elas e mais ninguém. Eu as colocava nas histórias que escrevia, sem parar. Apareceram até no roteiro do meu TCC, que se chamava “Tulipas”. Demorou até que eu percebesse que essa ânsia por ver essas flores podia se tornar uma realidade. E lá fui rumo a esse sonho, na cara de na coragem, mochila nas costas, viajando sozinha pela primeira vez na vida.

A Holanda estava em primavera. E já saindo do aeroporto em Amsterdam, quando vi a primeira tulipa em um canteiro, meu coração já se encheu de alegria. Não eram de mentira, eram tão verdadeiras como eu mesma me encontrava ali em presença, tocando-as e sentindo as suas pétalas macias e os seus caules compridos bem verdes.

Estavam por toda parte. Nas casas, nas ruas, nos jardins onde o sol batia bem quentinho (ainda fazia um pouco de frio). Mas eu queria mesmo era ver os campos, o campos infinitos de tulipas vermelhas, amarelas, negras, brancas, rosas, como as havia visto do alto, lá do avião.

Mas demorou. Por conta da Festa da Rainha que deixou a cidade apinhada, aproveitei para visitar um amigo em Paris, o Walter, que estava fazendo doutorado lá. Claro, a Cidade Luz também é incrível e me tomou muita atenção. Por cada rua que passava, geralmente sozinha, eu me reconhecia e me conhecia, trocando ideias com as pessoas, com os lugares, com as árvores e cachorros, com o céu e com o sol, anotando em meu caderno o que não quisesse esquecer de jeito nenhum.

E lá – olhe só – também fui a um Jardim. O Jardim de Monet. Maravilhoso, cheiroso, todo salpicado de flores. Milhares delas, que faziam a casa parecer uma grande pintura viva.

O bom de viajar sozinha é que ninguém enche o saco para ir embora ou fazer compras, então me dei ao luxo de passar tanto tempo quanto quisesse naquele jardim. Conheci cada cantinho e descansei em um dos bancos, ao sol. Havia muitas crianças lá, em excursões de escola com professorinhas francesas. Que maravilha deve ser morar no país onde viveu Monet.

Vi depois as suas obras no Museu do Impressionismo, na cidade onde ele morava, Giverny. Novamente, muitas pinturas de flores e de jardins, de natureza. É um contato com a natureza que é impressionante, e muito calmante também, como se ela fosse mesmo uma grande mãe com seus braços a nos acolher, sussurrando: “não tenha medo, o mundo tem muitas coisas lindas para você!”.

Então voltei à Holanda e já faltavam poucos dias para vir embora. Eu quis deixar por último a visita aos Jardins Keukenhof, que é esse enorme, gigantesco jardim paradisíaco de tulipas, crocos, narcisos e tantas outras flores. Quis deixar por último porque queria que ele fosse a lembrança mais fresca na minha memória.

Peguei um ônibus bem cedo e saí de Amsterdam. Os jardins ficam em Lisse, que é uma cidade perto de lá, pequenininha. Estava com uma expectativa muito alta, pois era meu último dia na Holanda e nos dois anteriores havia chovido muito. Apenas nesse dia o sol brilhava muito forte e me senti muito feliz por isso.

Quando entrei no jardim, foi aquela alegria sem tamanho. Fiquei andando por todos os cantos, sorrindo feito pinto no lixo, querendo tirar fotos pra não me esquecer nunca, nunca, do quão belo era aquele lugar. Como no jardim de Monet, descansei um tempão ouvindo os sons da natureza, desenhei o que via, escrevi. Era um lugar muito inspirador.

Mas então eu descobri que o jardim não estava em sua plenitude. Alguns dias atrás, enquanto eu estava em Paris, os jardineiros haviam podado as flores que já começavam a sofrer por causa do calor do fim da primavera. Por isso os campos e os canteiros não estavam tão cheios.

Então fiquei triste com isso. Porque sempre uma parte de nós quer o perfeito, e fiquei chateada ao ver que diante de mim estava o quase-perfeito. Fiquei alguns minutos lutando comigo mesma, me culpando por não ter ido lá antes, até conseguir entender que eu já estava vivendo um sonho tão grande que seria muito egoísmo querer mais do que já estava recebendo.

Voltei para casa realizada, em contato com raízes profundas que eu nem sabia que existiam. Deixei uma parte muito grande de mim naquele lugar, naqueles jardins. Deixei meus segredos, que agora as plantas e as flores também conhecem. Mas também encontrei novos segredos, novos sonhos, novas vontades. Lá eu pude andar de bicicleta depois de muito tempo, e nessa sensação do vento no rosto eu vi o quão libertador pode ser viajar sozinha, me conhecendo melhor, conhecendo melhor o mundo, os sentimentos, as pessoas, de uma forma intensa.

Minha viagem não terminou, não há dúvidas disso. Ela está só começando, e se os jardins forem sempre a minha maior motivação, que eles então permaneçam sempre intocados e misteriosos dentro de mim, chamando-me a cada dia para descobrir as suas maravilhas.

Frase antiga

Juro que estou tentando escrever um post interessante para este blog. Até estão saindo umas coisas legais, mas o último texto que escrevi acabou ficando tão grande que vou ter que pensar em uma forma de condensar para caber aqui. Ficar muito tempo sem escrever no blog dá uma enferrujada. A linguagem, a forma, o conteúdo. Às vezes me esqueço de que o ambiente é bem mais casual do que costumo imaginar que seja. Por incrível que pareça, é difícil treinar essa forma mais livre de escrever.

Aproveito então para colocar esse vídeo do Pedrinho Valença e do Weslley Fonseca cantando no CAJU. Acho tão bonito como eles arranjam as vozes, e como a letra fala de uma angústia comum a todos nós. Procurar respostas e não encontrar, o conflito com o tempo e a busca por uma paz perdida. E o mais singelo de tudo é o burburinho no fundo, enquanto estávamos almoçando e conversando animados.

Bem, fiquem com a canção. Ela se chama “Frase Antiga”.

Boa noite a todos!

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Noite… Por que que o tempo passa devagar?
Só sei que a qualquer hora vem o sol
Tempos, ainda há mais perguntas a fazer
Não sei se alguém irá nos responder

Eles dizem que o tempo pode curar qualquer ferida
Cansei de esperar
Mas numa frase tão antiga, já tantas vezes repetida
Respostas encontrei

Entregar o meus caminhos ao Senhor
Confiar nEle, e o mais Ele fará
É fácil de cantar
Preciso aprender
Posso viver feliz

Talvez a vida nunca traga explicações
Mas Deus em Sua essência é Amor
Quando bater no coração tão forte dor
Lembro, Deus tem uma grande obra em mim

Precioso é o tempo mais do que qualquer conquista
Tem muito pra ensinar
E essa verdade tão antiga, se for real em minha vida,
Vai devolver a paz.

Se entregar os meus caminhos ao Senhor,
Confiar nEle e o mais Ele fará
É fácil de cantar
Preciso aprender
Posso viver feliz.