reviravoltas no jardim

histórias, pensamentos e a terra molhada

Month: abril, 2010

Os barqueiros e os óculos

Estive meio desanimada essa semana, com altos e baixos. O piquenique no Parque Villa Lobos, com a criação do quadro coletivo e a companhia sempre balsâmica dos amigos da faculdade foi algo que me deixou bem pra cima, mas os momentos de solidão em casa têm sido bem angustiantes. Nunca pensei que ter que acordar, tomar café da manhã e escrever roteiros de filmes algum dia seria enfadonho, mesmo porque meu sonho sempre foi trabalhar em casa a hora que eu quisesse, podendo parar para fazer o que eu tivesse vontade. Mas agora sinto como se houvesse uma obrigação para a liberdade, ou algo parecido. E o problema disso é sempre a falta de disciplina, que me deixa fazer primeiro o mais fácil e empurra o trabalho pra quando já estou cansada demais pra pensar.

Mas o fato é que estou descobrindo cada vez mais que a criação coletiva é o que me estimula de verdade. Posso escrever coisas boas quando estou sozinha, não duvido disso, mas a angústia que pago pela solidão não compensa. Vou terminar o longa, mas não vejo a hora de entrar na fase de produção (espero que não demore mais do que dois anos) e poder elaborar melhor os detalhes com outras pessoas. Além disso, me contenta saber que, agora que o Brilhante F.C. ganhou o edital do Minc, vou voltar a criar histórias em equipe. A troca de ideias é sempre muito rica e me faz muito bem.

Uma vez eu usei a metáfora dos barquinhos para falar sobre honestidade, e acho que agora posso usá-la para falar de construção de ideias de um modo mais amplo. É assim: existe um oceano enorme de possibilidades. Existem muitos peixes, muitas algas, muitos bancos de areia e quem sabe algumas sereias de cabelos desbotados. Existem nós, os barqueiros, cada um com seu barco e seu par de óculos sub-aquáticos (que não deixam a água salgada arder os olhos). Eu vejo só o que está ao meu redor, e isso não passa de um raio de vinte metros. Posso colocar no meu relatório: este oceano contém corais amarelos e arraias douradas. Você, provavelmente, vai ver outras coisas. Minha avó vai ver outras mais, e não necessariamente as mesmas que eu vi. Percorrer todo o caminho para ver tudo o que todo mundo já viu é quase impossível, dado o tamanho e a profundidade do oceano. E, claro, chega uma hora em que a atividade se torna inevitavelmente maçante.

Mas existe uma possibilidade de tudo ser muito mais estimulante e agradável. Com a simplicidade de um “oi, tudo bem?”, é possível explorar partes gigantescas do oceano. Se dois barqueiros se juntam para contar o que viram, o simples navegar solitário já se torna uma missão: não vivo apenas para meu próprio conhecimento, mas para o crescimento de outra pessoa, e vice e versa. Na troca de experiências, a vida pulsa e ganha um sentido mais completo. Assim, histórias fantásticas podem surgir, e provavelmente esses barqueiros de vida pacata tomariam ciência da explosiva guerra das mil léguas submarinas responsável pelas sereias refugiadas ou pela tonalidade dos corais. Veriam, enfim, que o mundo é sempre maior do que o que achamos que é, na nossa pequena e confortável ignorância do dia-a-dia.

O Raio Verde

Nos tempos em que eu criava o projeto de seriado Théo, meu tutor e amigo Claudio Yosida me contou de sua admiração por Eric Rohmer e me indicou um dos seus melhores filmes, O Raio Verde, de 1986. Anotei o nome, mas só fui ver muito tempo depois. Já aconteceu de vocês terem visto um filme e pensado: “nossa, se o tivesse visto antes, certamente minha vida teria sido melhor”? Foi assim.

O Raio Verde conta a história de Delphine, uma jovem parisiense que não tem nada para fazer nas suas férias de julho depois que uma amiga desiste de viajar com ela. Sempre observadora, Delphine se sente deslocada do mundo e das pessoas, não consegue se envolver completamente em nenhuma situação e está sempre descontente. Ela viaja de um lado para o outro, sem rumo, conhecendo pessoas e fugindo das ocasiões em que se sente ameaçada. Mas, no processo, começa a perceber que existe sim uma esperança de mudar, de amar a si mesma e aos outros, de se sentir amada e feliz. Uma esperança que corta o horizonte como um raio verde ao fim do poente.

Assisti-lo me fez relembrar uma época em que eu era como Delphine. Reclusa, triste, observadora ao extremo, deslocada do mundo e achando que era a princesa perdida em uma torre fria de marfim, inatingível por todos – e, como percebi depois, por mim mesma. Foi difícil mudar – e, por mais que por vezes ainda me sinta no terrível direito de querer ficar sozinha olhando para o teto como se fosse a tela de um filme que não acontece, hoje consigo enxergar novas perspectivas.

Sinto que vivo mais. Sinto que consigo ser mais honesta com meus sentimentos, consigo me expressar com mais fluência e – principalmente, me relacionar com as pessoas de forma a pulsar o amor que há em mim. O amor que antes era invisível, inalcançável, oculto pela camada da razão e da intelectualidade extremas – que disfarçavam com aparente sucesso o meu enorme pavor de estar viva.

Há amor em mim, há amor em nós. O raio verde não é um mito. Apesar de ser difícil vê-lo, está lá, esperando para preencher o céu com esperança lancinante. E, caso deixemos passar o instante decisivo, há um consolo: o sol se põe todos os dias – logo, sempre há uma nova chance para mudarmos o que nos tem impedido de sermos felizes.

Fp 4:8

“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe vosso pensamento.”

No amount of crying

Aqui em Sampa parece que vai chover a semana inteira. Hoje mesmo já tive que sair de guarda-chuva debaixo de uns pingos que caíam fininhos como talco, voando por todos os lados. Adoro tempos assim.

Para esta segunda-feira, escolho The Weepies. Essa música, aliada ao céu nublado, me faz ter uma vontade enorme de compartilhar um chocolate quente com alguém. Pena que hoje vou estar sozinha e reclusa, escrevendo diálogos (espero que dessa vez saia alguma coisa que preste). O lado bom da coisa é que eu gosto de escrever, e também vou estar na companhia da Lucy (minha estimada cã). É, talvez a tarde seja agradável.

Ei, esta semana quero experimentar receitas diferentes. Alguém tem alguma sugestão?

Porque Ele vive

Toda Páscoa me traz o silêncio da reflexão. O silêncio do céu nublado, das nuvens escuras que envolveram os últimos suspiros daquela morte. Mas traz também o silêncio da esperança, do mágico retorno, da nova vida e dos milagres que aconteceram e continuam a acontecer a cada dia. Se Deus libertou seus filhos da escravidão no Egito, na ocasião da primeira Páscoa, hoje ele nos liberta da escravidão da morte. O silêncio agora se expressa no segundo do assombro, do respiro, da segunda chance diante da vida plena que nos é oferecida de graça. Uma feliz Páscoa a todos.

O piquenique e o jardim

Não me canso de ver essas fotos e me lembrar dos belos momentos do último domingo. Foi aniversário da Tati, e resolvemos fazer um brunch no Parque Villa Lobos. Sentir a proximidade dos amigos e o contato com a natureza foi surpreendentemente revigorante, ainda mais rodeados pelas bexigas coloridas, guarda-chuvas, bolsas, colares, necessaires e outras coisas aleatórias e divertidas que penduramos na árvore.

Momentos assim me trazem esperança. Se passo horas em um ônibus lotado na hora do rush em plena São Paulo, cheia de problemas e coisas a resolver, sei que também posso dedicar parte da minha vida a cuidar de mim, de forma a me manter tranquila no meio do caos. Me traz esperança porque também apontam para outro Jardim, mais esperado, completo e florido.

Amanhã é sexta-feira santa. A lembrança do sacrifício e, portanto, da vida. Leio novamente um trecho do conto “O sobrinho do mago”, de C. S. Lewis, que se encontra nas Crônicas de Nárnia. Após cavalgar por centenas de quilômetros, o menino Digory e sua amiga Polly percebem algo adiante, na relva:

“Que é isso?” “Estão sentindo esse cheiro?” “De onde está vindo?”. Pois um aroma celestial, cálido e dourado, como se viesse das mais gostosas frutas e das mais belas flores do mundo, chegava até eles, proveniente de algum lugar mais adiante.

Era o Jardim. Ele sempre existiu. Estava lá na criação do mundo, estava quando tudo pareceu perdido, estava no sacrifício e estará igualmente presente, intacto, quando chegar o fim desta história e o começo de todas as outras. E, nesse Jardim, o verdadeiro, é onde acredito estar a maior e mais bela árvore à espera de todos nós, para o mais incrível piquenique que se possa imaginar. O Jardim sussurra um convite. Saibamos senti-lo.

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