reviravoltas no jardim

histórias, pensamentos e a terra molhada

Month: março, 2010

Chuva no jardim

Caem do céu as gotas que um dia fizeram parte de mim. Ontem agarravam-se ao coração petrificado, hoje se desprendem como pétalas que voam das árvores em dia de tempestade. Primeiro o medo, agora a vida: amanhã o sol nasce de novo, e isso basta para que o jardim continue a florescer.

Minha mini-horta de temperos

Ver o sol nascer no Ceagesp, iluminando milhares de flores coloridas em uma manhã fresca, realmente não tem preço – ainda mais na companhia de duas amigas loucas que toparam acordar antes das 5h para esta empreitada. Tati e Mabel certamente são daquelas que estarão fazendo piqueniques com meus filhos – espero eu, em um futuro não muito distante – e andando de bicicleta pela USP às seis da manhã quando tivermos 32 anos.

No passeio, consegui concretizar uma meta estipulada há alguns meses, desde que vi que a vida virtual estava ocupando uma parte da minha existência que eu gostaria de diminuir. Tendo apagado minha fazenda no Facebook, decidi que iria plantar uma mini-horta de ervas aromáticas. Assim, hoje comprei uma caixa com 15 mudas de manjericão, hortelã, tomilho, salsinha, orégano e cebolinha por 6 reais, mais um pacote de 2kg de terra nutritiva com húmus, e dois vasos brancos. Perdi a aula de yoga (na volta do Ceagesp, um pouquinho de trânsito já foi o suficiente pra causar um super atraso), mas passar a manhã plantando as mudas com a batian e a Lucy foi extremamente feliz e gratificante!

As fotos que se seguem mostram as etapas de plantio dos temperos. No fim, outro vaso que comprei para colocar no meu quarto. Espero que ele cresça bastante e comece a descer pela estante! Acho que vai ficar bonito.

Para quem quiser iniciar também esse pequeno passo rumo à vida simples na cidade grande, recomendo o vídeo a seguir, que dá dicas de cultivo de ervas aromáticas.

Um bom resto de terça-feira a todos!

Lc 6: 37 e 38

“Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados;

dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão; porque com a medida que tiverdes medido vos medirão também”.

Abraçadores de árvores

Sumi por alguns dias! Estive escrevendo feito louca o meu projeto de longa-metragem infantil pro edital do Minc. O resultado me deixou bem satisfeita e, apesar de agora estar com aquele “vazio pós-correria” – como aqueles que eu costumava sentir depois de ter entregue todos os trabalhos ao fim do semestre -, me sinto empolgada pra desenvolver o roteiro. Só o projeto teórico que ainda me dá friozinho na barriga, mas espero que dentro de algumas semanas tudo isso esteja encaminhado.

Estava ouvindo agora Kimya Dawson, pra variar. Adoro a maneira simples e bela com que ela compõe suas músicas, com letras divertidas e sinceras. Mas o que mais chama a atenção é o modo despretensioso com que ela parece viver, entregando-se à vida de uma forma inteira, completa, que eu realmente invejo. Ela tem uma filha, Panda, agora com três anos, se não me engano. Essa foto foi quando Panda nasceu, e é incrivelmente graciosa! Também adoro as tatuagens de coelho, e eu poderia arriscar que Kimya realmente estivesse com vontade de ser mãe.

Para animar a sexta-feira, Tree Hugger! Me lembra de forma feliz o meu amigo Torago, que partiu sem que pudéssemos abraçar árvores de verdade, como ele tanto queria. Mas espero que um dia possamos fazer isso juntos, no Jardim.

Quem quer ir ao Ceagesp comprar flores na terça-feira? Estou querendo colocar uma árvore na minha sala!

Amantes de livros

Hard to Tell

Fiquei apaixonada por Jeff Pianki desde que o vi pela primeira vez cantando Say Hello com a irmãzinha. Naquela época, ele ainda começava a despontar sua veia musical na internet gravando covers, principalmente de Sufjan Stevens, sempre expressando sentimentos de forma honesta e talentosa. Agora, ele compõe suas próprias músicas e acaba de gravar um cd, que pode ser conferido em sua página no Myspace. Algumas canções também estão disponíveis para download no last.fm.

Bom para dias chuvosos, momentos de introspecção ou simplesmente para quem gosta de letras bucólicas e melodias suaves.

Walter Crane

Quando fiz a matéria de arte e literatura infanto-juvenil na faculdade, logo vi que ilustrações iriam se tornar uma paixão para mim. Foi assim quando conheci as obras de Walter Crane, um dos artistas mais importantes do ramo e que dignificou a profissão do ilustrador no Reino Unido, no final do século 19. Ele criou grupos de trabalho, reivindicou direitos e começou a trabalhar os conceitos de toy books ao ilustrar uma coletânea de cantigas de roda para Edmund Evans, famoso especialista em gravuras da época. Seus trabalhos gráficos eram delicados e absorviam grande influência da arte japonesa.

Apesar da delicadeza, me impressiona a carga emocional que transparece em cada obra. São belas e simples, mas certamente não são leves nem lúdicas como as ilustrações recorrentes para crianças costumam ser. Consigo imaginar a desilusão da princesa quando descobre que precisa beijar o sapo para que ele se torne príncipe. Posso sentir o silêncio de seu desgosto quebrado pelo som da água que jorra da fonte, e talvez os passarinhos que cantam no bosque ao fundo. Na obra abaixo, o rosto sereno de Elaine de Astolat em meio ao rio calmo, em contraponto à expressão carregada do barqueiro, intensifica a dor da morte causada pela decepção com Lancelot, que a desonrou ao tratá-la como uma serviçal quando o que ela queria era seu amor.

Ilustrações como essas me fascinam e me fazem querer conhecer cada vez mais histórias do mundo, com suas peculiaridades visuais e cargas dramáticas diferenciadas. Mas o mais curioso nisso tudo foi que, ao pesquisar imagens para esse post, acabei encontrando algo que eu não esperava: a pintura de Crane chamada Primavera, de 1895. Não é ilustração de nenhum livro, mas achei profundamente tocante a semelhança com o plano de Kytice que, coincidentemente, selecionei para o post que fiz na semana passada sobre esse filme. Dá o que pensar.

Almoço de domingo: batatas socadas

Adoro cozinhar, principalmente quando estou inspirada para fazer coisas novas! Outro dia, eu e minha prima preparamos um almoço para a família, aqui em casa. Como sou vegetariana, logo quis mostrar que é possível comer bem sem precisar de carne, e deu muito certo. Todos adoraram! Fizemos arroz integral com endro, que é uma erva mediterrânea muito saborosa, mini-hamburgueres de soja com tomate-cereja e batatas socadas. Na verdade o nome é batatas ao murro, mas minha mãe disse “batatas socadas” e eu adorei a ideia, principalmente depois que minha tia ficou insistindo no nome certo, original da receita portuguesa.

Vou copiar descaradamente a receita do Panelinha, que foi onde aprendemos a fazer esse prato fácil e saboroso.

Ingredientes:

- 4 batatas grandes

- 2 l de água

- 4 colheres (sopa) de sal grosso

- 4 colheres (sopa) de azeite de oliva

- alecrim a gosto

- papel-alumínio

Modo de Preparo:

1. Sem descascar as batatas, lave-as bem sob água corrente.

2. Numa panela grande, coloque as batatas com a casca e 2 litros de água. Leve ao fogo médio e deixe cozinhar por 45 minutos. Transfira as batatas escorridas para um pano de prato limpo.

3. Quando esfriar, dê um murro em cada batata. Elas devem ficar ligeiramente achatadas e abertas.

4. Preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média).

5. No fundo de uma travessa refratária, espalhe metade do sal grosso e disponha as batatas. Salpique o restante do sal, regue com o azeite e polvilhe com o alecrim. Cubra com papel-alumínio e leve ao forno preaquecido para assar por 15 minutos. Sirva quente.

***

Para mim, a segunda melhor parte da receita (depois de comer, é claro), foi dar os murros nas batatas. Super terapêutico! E o melhor de tudo é que o estresse liberado não é retido pela comida.

Bem, esse post gastronômico só aconteceu porque estou morrendo de fome, após passar metade da manhã escrevendo meu longa infantil, e a outra limpando a casa com aspirador de pó.

Bon appetit!

Pv 8: 10 e 11

Aceitai o meu ensino, e não a prata – e o conhecimento, antes que o ouro escolhido. Porque melhor é a sabedoria do que jóias, e de tudo o que se deseja nada se pode comparar com ela.

Entrelinhas


Dá-me a tua mão:

Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.


Após um dia corrido e cheio de surpresas, em que reencontrei amigos queridos e me senti também querida, nada como aquela doce calma de se admirar as coisas boas da vida.

Poema “Dá-me a tua mão”, de Clarice Lispector, fotos de Alice Beasley.


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