Como barquinhos no oceano
by Natália Maeda
A cada dia me convenço mais da necessidade da honestidade para a vida, como princípio de sempre lidar com a realidade como ela é (o que é essencial ao tentar mudá-la). Não se trata apenas de falar a verdade dos fatos que aconteceram, mas falar a verdade – para si e para os outros – quanto ao que se acredita e, principalmente, agir de acordo com tais crenças, sejam elas convencionais ou não.
É profundamente tentador seguir a manada, já que pensarmos por nós mesmos aparentemente nos coloca em uma maior posição de risco. Se errarmos, erraremos sozinhos? Não é melhor errarmos todos juntos de uma vez? Ora, o risco é o mesmo. Se não há como sabermos o que nos espera atrás da próxima curva, no fim das contas, o que importa é como estamos nos posicionando no aqui-e-agora. Daí a importância da honestidade como parâmetro de certeza: se estou realmente satisfeito com quem sou, se realmente estou conseguindo transparecer o que de mais autêntico há em mim (incluindo-se aí também meus defeitos e dúvidas), então não há porque me preocupar com os obstáculos que virão.
É como se cada pessoa no mundo vivesse em um barquinho que fosse só seu. No oceano, pode-se fazer o caminho que quiser. Algumas vezes é possível avistar outras embarcações e trocar com elas alguns sinais de fumaça e informações sobre como anda o tempo nos diferentes pontos do globo - mas, no fim, cabe a cada um seguir a rota que achar mais conveniente, ou simplesmente aquela que sua intuição esboçar. Aqueles que preferem seguir outros barcos por medo ou comodismo facilmente se perdem na primeira tempestade: assim como de nada adianta ficar ao léu se algo dentro de nós clama por terra firme, de pouco ou nenhum proveito será a posse do melhor mapa se não existir a vontade genuína de segui-lo.

“Não se trata apenas de falar a verdade dos fatos que aconteceram, mas falar a verdade – para si e para os outros – quanto ao que se acredita e, principalmente, agir de acordo com tais crenças, sejam elas convencionais ou não.”
Gostei muito de pedacinho em especial. Sintetizou meses de reflexões passadas (e as vezes esquecidas). Agir conforme a verdade que se crê, eu defino como caráter. Desde que seja assegurado a sinceridade (como você mencionou) e cuidado na busca dessa verdade (ainda que não seja a verdade de verdade). Nesse processo um dos remos é a razão, o outro é a moral. A técnica de remar nós aprendemos ao longo da trajetória, observando aqueles que remam (ou remaram enquanto vivos) melhor que nós, e lendo seus manuais de instruções. Claro, pelo raciocínio e devoção, também podemos refinar nossos próprios métodos.
Às vezes sinto que meu mapa foi desenhado com hidrocor num papel, o mesmo que foi dobrado e agora é meu barquinho. O que mais me aflige é saber que os traços vão borrando com a água e posso esquecer o caminho que devo seguir bem quando estiver no meio do oceano.
DW, eu também sinto isso às vezes. Daí a necessidade de se rever o mapa todos os dias e reforçar com hidrocor os traços que julgamos importantes a serem seguidos. Dessa forma, não vamos nos esquecer do caminho, e nem teremos desculpas para isso, se quisermos.
Eu acho que não precisamos seguir outros barcos, mas eu preciso ter a certeza de que determinados barquinhos estão próximos, ou pelo menos a certeza de que eles estão bem, mesmo que fora do meu campo de visão. O meu medo não é (só) o de errar sozinha, mas o de me deparar com uma coisa linda e não ter alguém para abraçar e compartilhar. Medo de solidão.